Sábado, 24 de Outubro de 2009

    

 

     - Idiota! Já viste o que fizeste?

     Ele olhou para a água, depois voltou a olhar para ela e limitou-se a abanar a cabeça, enquanto punha uma mão à frente da boca. O gesto dele significava que assumia total responsabilidade, mas naquele momento ela odiou-o por aquela reacção tão desajustada. Ele olhou para a bacia e suspirou. Por momentos, pensou que ela ia dar um passo para trás e pisar a jarra, o que o levou a levantar a mão e a apontar, mas sem dizer nada. Em vez disso, começou a desabotoar a camisa. Ela percebeu imediatamente o que ele se preparava para fazer. Era intolerável. Tinha ido a sua casa e tinha tirado as meias e os sapatos - muito bem: ela mostrar-lhe-ia como era. Tirou as sandálias, desabotoou a blusa e despiu-a, desapertou a saia e tirou-a pelos pés e meteu-se na bacia. Ele ficou imóvel, de mãos nas ancas, a vê-la meter-se na água em roupa interior. Negar a ajuda dele, negar-lhe qualquer possibilidade de remediar o que tinha feito, seria a sua forma de o castigar. A temperatura inesperadamente baixa da água, que quase a deixou sem respiração, seria o castigo dele. Susteve o fôlego e mergulhou, deixando o cabelo aberto em leque à superficie. Afogar-se seria o castigo dele.

     Quando emergiu alguns segundos depois, com um caco em cada mão, ele teve o discernimento de não se oferecer para a ajudar a sair da água. Aquela ninfa branca e frágil, da qual a água corria em cascata, mais que do corpolento Tritão, colocou cuidadosamente os pedaços junto da jarra. Vestiu-se rapidamente, enfiando com dificuldade os braços molhados nas mangas de seda e prendendo a blusa desapertada com a saia. Pegou nas sandálias e enfiou-as debaixo do braço, pôs os cascos no bolso da saia e pegou na jarra. Fez tudo aquilo com movimentos selvagens e sem olhar para ele. Ele não existia, fora banido, e isso também era uma forma de o castigar. Ficou imóvel e em silêncio, a vê-la afastar-se descalça e com o cabelo escuro a ondular pesadamente sobre os ombros, encharcando-lhe a blusa. Depois voltou-se e olhou para a água, para o caso de lá ter ficado algum bocado da jarra. Era difícil ver porque a superfície da água ainda não tinha recuperado a tranquilidade, sendo, aliás «, a sua turbulência acrescida pelo espírito remanescente da fúria dela. Robbie pousou a mão sobre a água, como para a aquietar. Entretanto, Cecilia desaparecera dentro da casa.

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Sábado, 17 de Outubro de 2009

 

      Polly Nichols foi vista, pelo menos, três pessoas a vaguear pelas ruas escuras, à procura de um cliente que precisasse de «uma de pé por 4 dinheiros». O relógio da igreja paroquial de St Mary Martfellon bateu as 2:30 h enquanto ela percorria quase 2km da Whitechapel Road, onde deve ter encontrado Maybrick. Às 3:40 h dessa madrugada, estava morta.

     Tinham trocado a estrada principal pela Buck’s Road, uma rua empedrada que, segundo o Evening News, não estava «sobrecarregada com candeeiros de gás». De um doa lados havia uma fileira de casas novas e, do outro, armazéns altos. Aí, Mabrick empurrou Polly Nichols, pelos queixos, contra o portão do pátio de um estábulo e estrangulou-a. Atirou-a para o chão e, com a sua faca nova e brilhante, cortou-lhe a garganta até às vértebras.

     A fantasia e obsessão de Maybrick com a decapitação são um tema constante em todos os seus relatos dos crimes de Whitechapel – e os relatórios médicos oficiais da época confirmam que, efectivamente, de todas as vezes se encontraram golpes profundos em volta da garganta.

     “Mostrei a todos que estou a falar a sério, o prazer foi muitíssimo melhor do que imaginara. A puta estava demasiado desejosa de fazer o seu serviço. Lembro-me de tudo e excita-me. Não houve grito quando cortei. Fiquei mais do que irritado quando a cabeça não saiu. Julgo que precisarei de mais força da próxima vez. Golpeei-a profundamente. Lamento não ter a bengala, teria sido um prazer enterrá-la com força nela. A puta abriu-se como um pêssego maduro. Decidi que da próxima vez vou tirar tudo para fora. O meu remédio dar-me-á força e o pensamento da puta e do seu proxeneta vai espicaçar-me sem dúvida.”

     Frustrado por não ter conseguido retirar a cabeça da vítima, o Estripador rasgou-lhe então a saia e golpeou-lhe e cortou-lhe a barriga com selvajaria.

     Depois, afastou-se em silêncio. Nenhum dos residentes ou dos guardas-nocturnos ouviu o que quer que fosse.

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Sábado, 10 de Outubro de 2009

    

 

     - Deixará os seus alunos para se empregar noutro sítio?

     Julião admirou-se da voz incerta e do olhar da senhora de Rênal. «Esta mulher ama-me», disse para consigo, «mas, depois deste passageiro momento de franqueza que o seu orgulho reprova e logo que não receie a minha partida, retomará a sua altivez.» Este relance de vista à sua posição foi rápido como um relâmpago; respondeu hesitante:

     - Terei muita pena de deixar umas crianças tão amáveis e de tão boa família, mas talvez seja necessário. Também há deveres para com nós próprios.

     Ao pronunciar as palavras tão boa família (eram palavras aristocráticas que Julião há pouco aprendera) animou-o um profundo sentimento de despeito.

     «Aos olhos desta mulher», continuava ele, conversando consigo próprio, «eu não sou bem-nascido.»

     A senhora de Rênal, ao escutá-lo, admirava o seu valor, a sua beleza, e sentia o coração esmagado, lembrando-se da possibilidade de partida que ele lhe fazia entrever. Todos os seus amigos de Verrières que, durante a ausência de Julião, tinham vindo jantar a Vergy, a tinham felicitado, como se a invejassem, pelo homem espantoso que o seu marido tivera a sorte de descobrir. Não era porque compreendessem coisa alguma dos progressos das crianças. O facto de saber a Bíblia de cor e, para mais, em latim, tinha causado nos habitantes de Verrières uma admiração que talvez predure um século.

     Como não falara com ninguém, Julião ignorava tudo isto. Se a senhora de Rênal tivesse tido um pouco de sangue-frio, teria gabado a reputação que ele conquistara e, tranquilizado o orgulho de Julião, ele teria sido para ela meigo e amável, tanto mais que o vestido novo lhe parecia encantador. A senhora de Rênal, que também estava contente com o seu lindo vestido e com a apreciação que o preceptor dele fez, quis dar uma volta pelo jardim; mas dali a pouco confessou que não estava em estado de caminhar. Dera o braço ao viajante, e este contacto, em vez de lhe aumentar as forças, tirava-lhas completamente.

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Sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

     

     Athena parou diante de mim e repetiu o gesto de sempre: fechou os olhos, e abriu a boca para receber o corpo de Cristo.
     O Corpo de Cristo permaneceu nas minhas mãos.
     Ela abriu os olhos, sem entender exactamente o que estava a acontecer.
     — Conversamos depois — sussurrei.
     Mas ela não se movia.
     — Tem gente atrás de si na fila. Conversamos depois.
     — O que está a acontecer? — todos que estavam próximos puderam escutar a sua pergunta.
     — Conversamos depois.
     — Por que não me dá a comunhão? Não vê que me está a humilhar diante de todos? Não basta tudo aquilo que já passei?
     — Athena, a Igreja proíbe que pessoas divorciadas recebam o sacramento. Assinou os papéis esta semana. Conversamos depois — insisti mais uma vez.
     Como não se movia, fiz menção para que a pessoa atrás dela passasse à frente. Continuei a dar a comunhão até que o último paroquiano a tivesse recebido. E foi então que, antes de voltar ao altar, ouvi aquela voz.
     Já não era a voz da rapariga que cantava para adorar a Virgem, que conversava sobre os seus planos, que se comovia ao contar o que aprendera sobre a vida dos santos, que quase chorava ao dividir as suas dificuldades no casamento. Era a voz de um animal ferido, humilhado, com o coração repleto de ódio.
     — Pois maldito seja este lugar! — disse a voz. — Malditos sejam aqueles que jamais escutaram as palavras de Cristo, e que transformaram a sua mensagem numa construção de pedra. Pois Cristo disse: “vinde a mim os que estão agoniados, e eu os aliviarei”. Eu estou agoniada, ferida, e não me deixam ir até Ele. Hoje aprendi que a Igreja transformou estas palavras: vinde a mim os que seguem as nossas regras, e deixem os agoniados para lá!
     Ouvi uma das mulheres na primeira fila a dizer que se calasse. Mas eu queria ouvir, eu precisava de ouvir. Voltei-me e fiquei diante dela, com a cabeça baixa — era a única coisa que podia fazer.
     — Juro que jamais voltarei a pôr os pés numa igreja. Mais uma vez sou abandonada por uma família, e agora não são dificuldades financeiras, ou imaturidade de gente que casa cedo. Malditos sejam todos os que fecham a porta para uma mãe e um filho! Vocês são iguais àqueles que não acolheram a Sagrada Família, iguais ao que negou Cristo quando Ele mais precisava de um amigo!
     E, dando meia-volta, saiu aos prantos, com o filho nos braços. Eu terminei o ofício, dei a bênção final, e fui direto para a sacristia — naquele domingo não haveria confraternização com os fiéis, nem conversas inúteis. Naquele domingo, eu estava diante de um dilema filosófico: tinha escolhido respeitar a instituição, e não as palavras na qual a instituição é baseada.

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Quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

 

     Os cabelos encaracolados de Constanza faziam-lhe cócegas no pescoço por baixo da barba. «Esta é diferente, é a a melhor. Os filhos de Constanza serão a salvação do sangue da mãe.» Enterneceu-se ao pensar na mulher. Constanza abriu os olhos e olhou-o de baixo para cima. Segurava-a com firmeza, as mãos sobre o baixo-ventre, e compreendia assim a sua sensibilidade animal às reacções dos outros, mesmo aos pensamentos. «Daqui o sangue Safamita correrá em homens e mulheres de valor», pensava. «Esta deve controlar o seu património, só ela.»

     «Papá, não gosto de estar ao colo do padre Puma: devo continuar a estar para ir para o Paraíso?» Constanza tinha falado com uma vozinha muito fraca, parecia estar a dormir.

     «Não, não deves. Diz-lho», respondeu o pai.

     «Já lhe disse, mas ele diz que é assim que se aprende a receber o corpo de Cristo. É um segredo. Não gosto do padre Puma. Tenho que o fazer?»

     «Não, não é preciso», respondeu o pai. Um suor novo escorria-lhe das têmporas, da testa, do nariz e enfiava-se, quente e salgado, por entre os lábios. Tinha que saber.

     «Onde te toca?»

     «Aqui», disse Constanza, dirigindo-lhe a mão com a sua - pequena, ossuda - para a virilha. «Magoa-me.»

     «Isso não se faz, diz-to o teu pai», afirmou. «Diz-lhe que não é preciso fazer isso para a primeira comunhão.»

     «Mas ele diz que se faz e que é um segredo. O que faço amanhã quando ele vier?» Constanza estava abciosa.

     O pai tinha dificuldade em controlar-se, a ira inchava-lhe os músculos. Doíam-lhe. «Não te preocupes, Constanza. Podes sempre confiar os teus segredos ao papá, eu não os conto a ninguém, nem sequer à mamã. Isto fica só para nós os dois e basta. Eu falo com o padre Puma. Amanhã não virá ao palacete. Estás pronta para a primeira comunhão e não precisas mais de catequese, e depois aliás temos de ir todos a Palermo para acompanhar Stefano ao colégio.»

 

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Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

 

 

"Apelo à Inquietação"

 

     Sem querer ser alarmista, devo informar todos os leitores do seguinte: fomos recentemente colocados perante um escândalo política, e a nossa democracia pode estar em perigo. Quando anunciou ao país a data do referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, Cavaco Silva produziu afirmações gravíssimas que, segundo creio, passaram até agora sem comentário. O presidente da República disse, com toda a desfaçatez, e cito: "é imprescindível que o debate decorra com serenidade e elevação." Ora, nenhum democrata pode admitir que o garante da democracia em Portugal venha deste modo limitar os direitos políticos de boa parte dos cidadãos. Se o debate sobre o aborto deve decorrer com serenidade e elevação, quase toda a gente que se pronuncia publicamente sobre o assunto vai ter de se calar. Até agora, o debate tem decorrido, regra geral, com bastante primarismo e gritaria. A julgar pelo barulho, o debate sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez opõe aborcionistas assassinos a beatos hipócritas. E Cavaco Silva acaba de excluir essa gente da discussão. Pergunto: quem sobra?

     Temo que não sobre ninguém. A comunicação social, por um problema técnico qualquer, tem dificuldade em captar discussões que sejam mantidas em voz baixa. Com serenidade e elevação, não vamos lá. A única maneira de o público tomar contacto com a opinião defendida por ambos os lados do debate é a barulheira. Padres serenos não aparecem na televisão. Mas padres encarniçados a pregarem contra partidos do sim em pleno altar porque essa gente que não respeita a vida devia ser abatida têm lugar no horário nobre. Activistas pró-aborto que discutem com elevação também aparecem pouco. Mas as que estão dispostas a explicar, aos gritos e à beira da apoplexia, porque é que este debate que opões gente séria a gente hipócrita deve decorrer com calma e sem maniqueísmos aparecem bastante mais.

     Há, nas declarações de Cavaco, outro problema: um plágio descarado da postura de Jorge Sampaio enquanto presidente da República. Apelar à serenidade é património político de Jorge Sampaio. Sampaio apelou à serenidade três ou quatro vezes por dia, ao longo dos dez anos em que foi presidente. Durante os dois mandatos de Sampaio, o país esteve mais sereno do que uma lesma. Creio que, em 2004, Sampaio apelou tanto à serenidade que o país chegou a adormecer durante dois ou três meses. E, quando acordou, Santana Lopes estava no poder. Cuidado, pois, com a serenidade.

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Domingo, 31 de Maio de 2009

 

 

     Ao chegar ao sanatório de Ranha, fui recebida pelo Doutor Gabrilovitch, que me disse que as minhas filhas não tinham sido avisadas da minha chegada.

     - Eu vou estar lá – disse-me ele – e se o choque for demasiado violento, tenho tudo à mão que possa ser preciso, como valeriana, éter, etc.

     Caminhei por um longo corredor, acompanhada pelo doutor e por Mne. Kharine, depois subimos as escadas até ao primeiro andar e paramos em frente de uma porta.

     - É este o quarto – disse o doutor em voz baixa.

     Estava consciente do ritmo frenético do meu coração. Tirei o meu chapéu com o longo véu crepe para não as assustar e abri a porta rapidamente. No quarto à minha frente vi as minhas queridas filhas a quem teria de contar sobre o terrível golpe. Teria dado a minha vida para as poupar. Ao ouvirem-me entrar, elas levantaram as cabeças e agarraram-se a mim com exclamações de alegria:

     - Mamã, querida mamã! – Depois, após um momento ou dois, a Irina perguntou:
     - E o papá? Onde está o papá? Porque é que ele não está aqui?
     A tremer dos pés à cabeça contra a porta, eu respondi:
     - O papá está doente, muito doente.

    A Natália desfez-se em lágrimas. A Irina, alerta, e branca até aos lábios, os seus olhos a arder como carvão, gritou:

     - O papá está “morto”!

   - O papá está morto – repeti em voz baixa, enquanto as duas se moldavam nos meus braços.

     Passei duas semanas terríveis com as minhas pobres meninas. Não tive coragem de lhes dizer que o pai delas, tão bom, tão generoso, tão leal, tão nobre de coração, tinha desfalecido como a vítima de assassinos infames. Disse-lhes que ele tinha morrido de doença, sem agonia, sem dor.

 

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Sábado, 30 de Maio de 2009

 

     Ela teve de inclinar a cabeça para trás para olhar para ele. Estava novamente a fazê-lo, a tentar dominar com a sua presença e vontade. Comprazia-se nisso e ele sentiu vontade de lhe bater pelo efeito que exercia nela. Com o avolumar da raiva, a sua pulsação acelerou.

     - Como se atreve a falar do meu futuro? E logo o senhor! Há um mês já não era promissor. Não possuía fortuna nem beleza mas pelo menos tinha um lar e uma família. É chocante que aborde o assunto à minha frente.

     Ele aceitou as acusações sem comentar. Ela viu nos olhos faiscantes dele um reflexo dos seus. Soou um alerta dentro de si, mas ela ignorou-o.

     - Há homens que procuram mais do que a fortuna e não lhe falta beleza. - Tendo em conta a expressão dele, intensa e dura, a sua voz soou muito calma.

     - Agora está a ser cruel.

     - Os seus olhos são duas maravilhas. Hipnotizantes. E reflectem o seu espirito indómito.

     A lisonja deixou-a sem fala. A sua mente fervilhava, procurando ordenar ideias que se dispersavam com o choque, mas não havia maneira de o fazer.

     Ele estava agora mais próximo. Ela não se apercebera do seu movimento mas estava muito próximo. Demasiado próximo. Fixou-a nos olhos e, por sua vez, hipnotizou-a.

     Um calor suave na sua face. Ele estava a tocar nela. A ponta dos dedos dele provocou-lhe um arrepio por todo o corpo. Devia...

      - A sua tez também é encantadora - disse ele, acariciando-a subtilmente. O doce contacto, surpreendente e íntimo, cortou-lhe a respiração. Ele baixou os olhos. - E a sua boca, Miss Welbourne. Bem, a sua boca é bele de um modo que duvido que alguma vez venha a compreender.

     Voltou a olhá-la nos olhos e mais uma vez a atordiu. O seu olhar ardia, fogoso e abrasador, repleto do perigo que desde o ínicio pressentira nele. (...)

     A boca dele precionou a sua. Quente, firme, dominador, o beijo produziu uma onda de choque prodigiosa.

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Sexta-feira, 29 de Maio de 2009

 

     Começou por sentir uma espécie de atordoamento; via as árvores, os caminhos, os valados, Rodolphe, e sentia ainda o amplexo dos seus braços, enquanto a folhagem tremia e os juncos sibilavam.

     Olhando, porém, para o espelho, admirou-se com o aspecto do rosto. Nunca se vira com os olhos tão grandes, tão negros nem tão profundos. Havia qualquer coisa de subtil espalhada na sua pessoa que a transfigurava.

     Repetia consigo mesma: "Tenho um amante! Um amante!", deleitando-se nesta ideia como se fosse a da chegada de uma nova puberdade. Ia então possuir finalmente aquelas alegrias do amor, aquela febre de felicidade de que havia já desesperado. Entrava no que quer que fosse maravilhoso, em que tudo seria paixão, êxtase, delírio; sentia-se circundada por uma imensidão de azul, os píncaros do sentimento cintilavam-lhe na imaginação e a existência ordinária só lhe aparecia muito ao longe, lá em baixo, na sombra, pelos intervalos daquelas eminências.

     Lembrou-se então das heroínas dos livros que lera, e toda aquela lírica legião de mulheres adúlteras começou a cantar-lhe na memória, com voze de irmãs que a seduziam. Tornava-se ela mesma agora parte autêntica dessas imaginações e realizava o longo desvaneio da sua juventude, enquadrando-se naquele tipo de mulher apaixonada que tanto invejara. Além disso, Emma sentia uma satisfação de vingança. Já sofrera bastante! Mas agora triunfava, e o amor, por tanto tempo reprimido, jorrava livremente em alegre efervescência. Saboreava-o sem remorsos, sem inquietude, sem desassossego.

publicado por tuga9890 às 17:56
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Este blog terá excertos de todos os livros que até agora me passaram pelas mãos, mesmo que não tenha gostado particularmente deles. O objectivo é dar a sensação de estar a percorrer uma livraria, quando folheamos os livros e lemos passagens que nos fazem decidir se valherá a pena em não. A discução aos livros expostos também será bem-vinda!


Veremos o que acontece...

publicado por tuga9890 às 16:35
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